O farmacêutico: do boticário ao desconhecido

    As Escolas de farmácia, no Brasil, nasceram junto com as escolas de Medicina, numa época em que o médico dependia do farmacêutico profissional para aprender e aprofundar-se no que era conhecido por 'arte de formular'. Ao farmacêutico cabia acompanhar e entender tudo o que dissesse respeito a medicamentos - ou seja, todo o âmbito das substâncias que alterassem funções no organismo (as chamadas drogas). Os primeiros cursos de farmácia já se orientavam no sentido de formar profissionais capazes de pesquisar e compreender tanto a natureza química das drogas como as suas ações e aplicações. Nestas duas vertentes se incluíam informações sobre a obtenção de substâncias químicas através de síntese em laboratório, o estudo do corpo humano e o tratamento dos seus problemas por meio de drogas ou farmácos. Mas, em seu tronco principal, os cursos de farmácia sempre objetivaram capacitar profissionais a procurar e produzir as mais eficientes formas farmacêuticas para o organismo.
    Em que pese a permanência dos objetivos que orientam a formação do farmacêutico, a sua atividade profissional sofreu deturpações ao longo dos anos. No início do século, o farmacêutico ainda era o 'boticário' que criava e produzia fórmulas em seu próprio estabelecimento, a farmácia ou botica. Ele se  integrava ativamente na vida de pequenas comunidades e, como tal, era detentor da mesma confiança depositada pela população no médico, no dentista ou no hospital da localidade onde exercia a profissão. Nas últimas décadas, porém, o farmacêutico afastou-se gradativamente do seu ambiente de trabalho original. Em lugar das farmácias, que produzem fórmulas, começaram a aparecer drogarias, a exemplo do cartel da indústria farmacêutica. Aos poucos, os donos do negócio foram sentindo à vontade para produzir e vender, a preços aviltantes, até medicamentos desnecessários.
    Paradoxalmente, os cursos de farmácia  cresceram exageradamente na década passada (só o Estado de São Paulo forma cerca de 1.500 profissionais por ano). Ao mesmo tempo, ganhou relevância a dicotomia entre o auxiliar de farmácia - uma circunstância que, considerados os interesses comerciais em jogo, pode evoluir ao extremo da contradição de tornar dispensável, na prática, a presença do farmacêutico nas farmácias. Hoje, balconistas de jaleco, sem formação técnica, já ocupam o espaço do farmacêutico no balcão de muitas farmácias e drogarias. Não é de se estranhar que tais estabelecimentos tenham se tornado palco de práticas condenáveis pela ética profissional.
     A ausência do farmacêutico permite a quem quer que esteja no balcão assumir a prerrogativa de oferecer, recomendar, sugerir e empurrar ao consumidor incauto o que quer que esteja na prateleira. A popular 'empurroterapia', uma prática que cresce na mesma proporção do alargamento do espaço dos balconistas, ocorre nas mais variadas formas, não raro estimulada pelos próprios fabricantes. Uma delas consiste em convencer o consumidor a levar para casa certos medicamentos 'bonificados', os chamados BO, que rendem ao dono do estabelecimento, para cada produto comprado, mais dois ou três da mesma espécie. Muitas vezes o desempenho do balconista é recompensado por laboratórios inescrupulosos com canetas, relógios, televisores e outros brindes. Há casos em que o balconista coleciona rótulos dos produtos vendidos para concorrer, depois, a uma espécie de loteria de prêmios. "Os laboratórios de pouca qualidade técnica têm associações espúrias com as farmácias", adverte o presidente da Sociedade Brasileira de Vigilância Sanitária de Medicamentos, Elisaldo Carlini, da Escola Paulista de Medicina. As farmácias, diz, só podem ter 35% de lucro sobre o preço de custo do produto, mas muitas são obsequiadas com 'dúzias' de 18 ou 24 e subfaturam a encomenda com notas fiscais de 12. "O que passa é lucro", denuncia o farmacologista.
    Um levantamento do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo encontrou casos absurdos de balconistas que vendem produtos para aborto caseiro e prescrevem psicotrópicos para dependentes de drogas. Por falta de controle, há casos de balconistas que receptam roubos de psicotrópicos, obviamente sem o consentimento do farmacêutico, e outros de conluio com médicos, para prescrição de receitas fraudulentas. "Aí reside um grande risco para o profissional que ausente do estabelecimento, acaba por se envolver, inadvertidamente, em problemas de ordem sanitária, legal e até penal", disse a presidente do Conselho Elaine Gandolfi.

Artigo publicado na revista Ciência Hoje
Vol. 15 / Nº 89  -  Abril de 1993


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